Alimentação: fome e apetite

José Maurício Ramos de Oliveira



Você tem fome de quê?  Titãs – “Comida”


A alimentação desempenha funções que estão muito além de um caráter nutridor do ser humano. Impregnada na nossa cultura, alimentar-se é  relacionar consigo, com o outro e com o mundo. Em nossa cultura, o comer deixa marcas para a vida toda: mamar, os doces na infância, a comida da avó, um jantar romântico, a ceia de natal, etc. “Comemorar” é celebrar com comida. Sabe-se também de sua intima ligação com amar e ser amado.
Comer é um processo diário e eterno que envolve desejos, escolhas, angústias e outros afetos.
Mas o que acontece quando sofremos por questões associadas à alimentação? Pesquisas demonstram o crescente aumento de conflitos relacionados à alimentação e ao ganho de peso. Não é a toa que as autoridades de saúde estão mobilizadas no mundo todo. O aumento de peso da população mundial é de fato alarmante. As implicações na saúde do sujeito são inúmeras e causam queda significativa na qualidade e expectativa de vida. É bom que se diga que não se trata de uma “guerra” à gordura ou de se levar os “gordinhos” à força para os tratamentos.
As diferentes composições corporais, de raça, cor, peso, etc. sempre fizeram parte da diversidade humana na história e na sociedade. O que temos observado é um fenômeno que precisa ser melhor compreendido. O que faz alguém saudável comer demais?
No último artigo me referi à diferença entre organismo e corpo. Nesse caso, o organismo tem fome e o corpo apetite. Se fosse pelo primeiro, bastaria comermos um preparado científico balanceado (comida de astronauta)  que teríamos o suficiente para o melhor funcionamento do mesmo. Mas seria muito ruim, não? Comida com gosto químico! Então o corpo também exige satisfação: sabor, cor, forma, cheiro, quantidade. Esse apetite é psicológico. Cada sujeito recebe de seu corpo as mensagens do que precisa.
Assim podemos entender as causas de uma hiperfagia (comer demais).  Não me refiro àquele abuso ocasional que fazemos numa festa, mas ao do dia-a-dia. O excesso. O compromisso entre o psiquismo e o corpo é: “ainda não estou satisfeito, coma mais um pouco!” Nesses casos muito comuns, podemos entender a lógica da falta e do excesso. Mas o que o corpo quer dizer com “não estar satisfeito”, se o organismo já deu sinais de sofrimento com o consumo excessivo de comida? O que falta então?
A epígrafe no início deste texto ilustra bem esta questão: fome de quê?
Entender esse apetite que é particular a cada um, é imprescindível no conjunto de medidas de saúde que um sujeito obeso é submetido. Assim como o médico, o nutricionista e o educador físico, o tratamento psicológico é importante para a solução desse enigma. 

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