Auto-sabotagem



José Maurício Ramos de Oliveira



Um famoso jogador de futebol joga a última partida de sua carreira na final da copa do mundo. A poucos minutos do fim do jogo, comete uma falta constrangedora e é expulso diante dos olhares de milhões de pessoas que assistiam ao jogo. Um vestibulando se confunde com o horário e o local onde prestaria a prova e perde a oportunidade pela qual estudou o ano inteiro. A funcionária de uma empresa percebe que mais uma vez perdeu a promoção em seu setor para outra pessoa com menos experiência de que ela. O que explica isso?
Todos nós conhecemos experiências como estas acima. Muitas delas podem ser encontradas em nossas próprias vidas. Podemos chamá-las de auto-sabotagem. São ações que fazemos que nos levam a algum tipo de fracasso. São comuns e na maioria das vezes só percebemos que aconteceram quando já é tarde demais. Podem ocorrer nas relações profissionais e nas pessoais. Está bastante presente nas relações amorosas. As pessoas repetem no amor relacionamentos que apresentam desfechos semelhantes. E sofrem.
Na clínica psicológica estas questões são muito presentes. Por que fazemos isso? E por que é tão difícil evitar que voltem a ocorrer?
Repetir comportamentos é algo inerente ao ser humano. Desde criança fazemos coisas repetitivas. Boa parte delas possui uma carga afetiva positiva: a comida de domingo, retornar em férias ao mesmo local, pedir sempre o mesmo sabor de sorvete, etc. Esses comportamentos são fáceis de justificar: fazemos pois gostamos. Na auto-sabotagem, a repetição é negativa. O que acontece é a surpresa diante da constatação de que fizemos algo que contribuiu para um fracasso.
Essa surpresa se dá ao percebemos que não temos todo o controle sobre o que fazemos. Pode parecer estranho, mas existe uma série enorme de coisas a nosso respeito que são inconscientes. Assim sendo, elas “escapam” ao nosso saber consciente e podem surgir quando menos esperamos.
A culpa e o medo são sentimentos que podem levar à auto-sabotagem. Ter sucesso financeiro, no trabalho ou no amor pode levar muita gente a se sentir culpada. Realizar os próprios desejos é angustiante pra muita gente. O medo se associa à culpa: “O que os outros poderão pensar se eu tiver sucesso? Será que irão me tratar de forma diferente?”
Um sujeito pode aprender muito sobre si ao analisar estes episódios. A sabotagem pode ser de dois tipos: Um que o afasta do que deseja e outro que mostra a ele que não está indo na direção certa. O vestibulando que presta uma prova para a profissão que não deseja, “perde” a hora. Poderíamos pensar que foi um ganho se considerarmos que ele não queria seguir aquela profissão.
Saber mais sobre si e esses “duelos” internos entre consciente e inconsciente é o que pode possibilitar maior autonomia na vida. Um bom exercício é responder à questão: “O que eu quero é o que eu desejo?” E análise.
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