Separação dos pais (3): reconstruindo


José Maurício M. Ramos de Oliveira



Após a  separação, cedo ou tarde homem e mulher deparam-se com a oportunidade de estabelecer um novo vínculo amoroso. Logo percebem que este é outro momento delicado onde desejos de diferentes pessoas estarão envolvidos e lidar com eles exige paciência e diplomacia.
Por algum tempo, a confiança em relação à eficiência do amor  fica abalada nas pessoas que viveram um recente processo de separação (pai, mãe e filhos). O pai e a mãe, de acordo com o que passaram, chegam até a pensar se vale a pena investir novamente tantos sentimentos em outra relação  que pode fracassar e que incluiria seus próprios filhos nela. Alguns superam estas e outras “resistências” e dão uma nova chance para o amor.
Um namorado da mãe ou namorada do pai  desencadeia uma série de sentimentos nos filhos.
Primeiramente a criança ou adolescente pode estranhar tal situação pois afinal sempre viu o pai como companheiro da mãe e vice-versa. Este estranhamento pode evoluir para uma aceitação ou para uma reprovação deste recente namoro. Alguns se sentem aliviados, pois estão vendo o pai ou a mãe felizes com esta nova pessoa. Esta felicidade renova suas próprias esperanças de um dia casarem-se e serem bem sucedidos. No caso de ocorrer um segundo casamento, ter um “casal” novamente em casa é bom para seu desenvolvimento. Muitos questionam se os filhos devem chamar o novo companheiro(a) de pai ou mãe, principalmente quando o contato com o pai(mãe) ausente é pequeno ou inexistente. Diríamos que se a criança souber quem é e o que aconteceu com seu pai(mãe) natural, não há problema desde que seja um ato espontâneo dela. É preferível ter dois pais(mães) de que nenhum. O novo relacionamento não  substitui o pai ou a mãe ausente, a herança natural é pra vida toda.
É importante que este novo relacionamento seja nomeado para os filhos. Namoro é diferente de amizade, que é diferente de noivado, que por sua vez difere de casamento. Eles precisam saber qual a intensidade da relação para poderem lidar com suas fantasias e expectativas.  Esconder o relacionamento pode ser um jogo arriscado pois dá margem a pensamentos de que o vinculo anterior ainda exerce importância, dando uma conotação de traição. Se há amor e se este é sincero por quê esconder?
Um novo companheiro que casa com a mãe, que é quem normalmente fica com a guarda dos filhos, irá passar mais tempo com eles de que o próprio pai. Sua participação na educação, imposição de limites, carinhos e castigos, será pouco a pouco definida entre os membros desta nova família e em alguns casos pode até tornar-se mais relevante que a do próprio pai. A cada dia novas situações são apresentadas e a boa condução do companheiro diante delas, assegura sua importância na família. 
Encontramos inúmeros casos de mães que abdicaram de novos envolvimentos e que em determinado momento da vida dos filhos alegam que não o fizeram para cuidar destes e agora que estão grandes devem retribuir a dedicação, mantendo-se ao lado dela. Não há nada mais terrível que tal “chantagem”. Esta dívida colocada assim é impagável e cruel. Por outro lado, também vemos filhos que impedem que seus pais estabeleçam novos relacionamentos, por ciúmes e até por comodismo. Por fim existem ainda os filhos que ficam apresentando pretendentes a todo momento, na tentativa de fazer com que pai e/ou casem novamente, demonstrando uma grande ansiedade por retomar uma rotina familiar interrompida. Se pai ou mãe casam ou não casam, deve ser por única e exclusivo desejo deles e não em nome de outros, mesmo que dos filhos.
Um posicionamento maduro do ex-marido ou ex-esposa frente ao novo casal permitirá com que os filhos possam viver as relações com pai, mãe e novo(s) companheiro(s) com mais franqueza e menos angústias. Quando a atitude é hostil, quem mais sofrem são eles, pois colocam-se como mediadores das diferenças de opiniões e sentem os ataques e criticas realizadas como ferimentos presentes em pessoas a quem amam.
Apesar de complexo, um segundo casamento tende a ser mais maduro pois os novos companheiros já acumularam mais experiências, podendo até reconstruir a imagem interna existente nos filhos de uma relação consistente e satisfatória.
Encerrando a série sobre separação dos pais, no próximo artigo tratarei da importância da escola e medidas educativas para os filhos de pais separados.
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