O organismo, o corpo, e o silêncio


José Maurício Ramos de Oliveira


A psicanálise assinala a diferença entre organismo e corpo, identificando o primeiro como a carne, a “máquina humana” e seu funcionamento anátomo-fisiológico. O corpo seria a transcendência do organismo, pois carrega a história de um sujeito: sua aparência, características familiares, de raça, religião, os acontecimentos marcantes na vida e seus significados. É o corpo da representação. O corpo simbolizado.
No funcionamento do organismo, confundimos saúde ao “silêncio” do mesmo. Isto é, um organismo silencioso, é um organismo que não se queixa. Tudo funciona bem. Quando adoece, revela-se um sofrimento do organismo que também afeta o individuo.
O sujeito doente procura o médico e revela seus sintomas. Este o examina e prescreve um tratamento. A ansiedade deste momento termina com a identificação e cura do problema.
Mas o que dizer das inúmeras vezes onde não se identificam as causas dos sintomas, com o organismo? Estimativas conservadoras indicam que, pelo menos, 10% de todos os cuidados médicos são proporcionados a pacientes que não têm nenhuma evidência de doença orgânica (Ford, 1986). Temos um sujeito queixoso num organismo sem problemas. Estes fenômenos despertam a curiosidade de vários psicanalistas, desde Freud, há mais de cem anos.
Para eles, estes sintomas seriam uma “formação de compromisso”, que expressa alguma coisa (no organismo) no lugar de outra (no psiquismo), a fim de evitar uma angústia. Um compromisso de proteção emocional, resultado de um conflito interno, que se descarrega no organismo. Este é um processo inconsciente. Um exemplo simples de identificar é a dor de barriga em dia de prova. Existem outros, mais complicados, que são os comportamentos “sintomáticos” como as compulsões e obsessões por alimentos, álcool, drogas, internet, jogo, compras, etc. Nestes casos, se sofre das conseqüências do que lhe dá (um tipo) de satisfação. O que dá prazer é o mesmo que dá dor.
O que o indivíduo que sofre quer, é a volta ao silêncio. Não ouvir, não saber de uma série de coisas sobre si, que ele terá de dar conta. Mas... como dormir com um “barulho” destes? O corpo usa seus meios de comunicar a necessidade de atenção que deve ser dada a algum conflito inconsciente. Trazer para a linguagem da fala este conflito (em análise) é a possibilidade de tirar do organismo este ônus e resolver a questão.
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